domingo, maio 08, 2005

II Guerra Mundial - B

Há 60 anos, a 8 de maio de 1945, com a derrota do Terceiro Reich, terminava a II Guerra Mundial na Europa.

Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique


As lições para sempre...

Houve também êxodos ou marchas forçadas que produziram inumeráveis vítimas entre os prisioneiros de guerra, os deportados e as populações desterradas; apenas no ano de 1945, por exemplo, mais de dois milhões de alemães encontraram a morte enquanto fugiam a pé até o oeste, frente ao avanço das tropas soviéticas. E houve também, e sobretudo, o crime dos crimes, a exterminação sistemática por parte dos nazis, por razões de ódio anti-semita, de seis a doze milhões de judeus europeus.

Por suas dimensões apocalípticas, e pelos tornados de violência, de crueldade e de morte que desvastaram o mundo, a II Guerra Mundial mudou profundamente não apenas a geopolítica internacional, mas também, muito simplesmente, as mentalidades. Para as gerações que viveram essa guerra e sobreviveram às suas violências, nada poderia ser como antes. Durante este conflito o homem desceu a uma espécie de abismo do mal e, de alguma maneira, chegou a desumanizar-se. Muito particularmente em Auchwitz. Por isso era necessário proceder, uma vez terminada a guerra, a um regeneração, uma reconstrução do espírito humano. Uma re-humanização do homem. Tal como o conhecemos hoje, o mundo segue fortemente modelado pelo trauma causado por esta guerra. Algumas lições foram obtidas, duas especialmente:

– Em primeiro lugar, que é necessário evitar a qualquer preço um conflito da mesma natureza; o que levou a comunidade internacional a constituir, a partir de 1945, um instrumento inédito: a Organização das Nações Unidas (ONU), cujo primeiro objetivo segue sendo impedir guerras;

– Em segundo, que as teorias fascista e nacional-socialista, assim como o militarismo imperial japonês, seguem culpados de ter lançado o mundo ao abismo de uma guerra tão abominável; e que os regimes políticos baseados no anti-semitismo, no ódio racial ou na discriminação constituem perigos não só para seu próprio povo como, também, para toda a humanidade. Esta é a razão pela qual, muito naturalmente, a II Guerra Mundial foi seguida pelo nascimento de Israel e o grande despertar dos povos colonizados de África e Ásia.

e a presunção dos impostores

Mas os próprios vencedores perecem ter se esquecido das lições desta guerra. Assim, por exemplo, a Rússia do presidente Vladimir Putin desonra a si mesma com a repressão cega e o abuso da força na Tchetchênia. E nos Estados Unidos, a administração do presidente George W. Bush faz uso dos odiosos atentados do 11 de setembro como pretexto para questionar o Estado de direito. Washington restabeleceu o princípio da “guerra preventiva” para invadir o Iraque, criou “campos de detenção” para prisioneiros despojados de seus direitos e tolera a prática da trotura.

Estes gravíssimos desvios não impedirão, de qualquer maneira, que Putin e Bush ocupem, em 8 de maio, o primeiro lugar e o centro das cerimônias que recordam a derrota do Terceiro Reich. Poucos meios se atreverão a recordá-los de que estão usurpando essa posição, por haver traído os grandes ideais da vitória de 1945.

Tradução: Tiago Soares e Antonio Martins, Outras Palavras

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