quarta-feira, novembro 02, 2005

Falta de saúde

Há uma geração que viveu o pré/durante/pós 25 de Abril revolucionário de um modo que os infectou (no bom sentido, embora os resultados possam ser mais ou menos proveitosos...) politicamente: estas pessoas envolvem-se pública ou privadamente em calorosas discussões/iniciativas político-partidárias. Há uma outra geração, tendencialmente nascida pos 25 de Abril que se encontra completamente arredada da cena política: não estão minimamente interessados, nem cartão de eleitor possuem. Há depois uma camada de gente (vertical ao eixo geracional) que se profissionalizou politicamente e optou por uma carreira pública de cargo em cargo governativo. E há por fim uma outra camada de gente - que talvez sempre tenha existido mas que recentemente sofreu um aumento exponencial - que se sente profundamente motivada a intervir na sociedade, que se retrai à vista das bandeiras partidárias, mas que bate o pé e exige o seu espaço, o seu modo próprio de intervenção. Este espartilhamento, como qualquer tentativa de organizar grupos sociais, sofrerá de mais ou menos incongruências, mas a minha intenção não é a de que todos se sintam enquadrados num destes grupos, é simplesmente a de me situar a mim. No último grupo.

Importa-me sobremaneira o rumo que segue a sociedade em que me insiro, sem nunca perder de vista o mundo muito mais complexo de que é parte integrante e accionante. Acredito no pensar global e agir local. Tenho simpatia por ideias anárquicas, mas penso que um líder faz toda a diferença – não um líder popularucho, como é a tendência actual, mas um estratega. Porém, “mente sã em corpo são”: este líder deve ser o facilitador duma sociedade civil forte. Se não, é escusado: não funciona.

Eu decididamente não tenho nenhuma aspiração a líder, mas pretendo ser parte da tal sociedade civil forte. Mais, acho que tenho direito a isso. Porém, todas as iniciativas em que me tenho envolvido acabam por esbarrar no poderio guloso dos partidos. Sublinho, antes de continuar, que os partidos políticos me parecem parte essencial da democracia, pelo que de longe proponho que se extingam. Mas já não tenho dúvidas de que eles ultrapassaram todos os limites no sentido da asfixia total da tal sociedade civil.

Presidenciais. Senti-me muito honrada com o convite para participar no ELEITO, mas a minha angústia cresce ao ver que também aqui as conversas são dominadas pelo que os outros órgãos de comunicação repetem até à exaustão: se os candidatos do costume dizem ou não dizem, se dizem, porque dizem, se não dizem, porque não dizem. E os outros? Os tais que se proclamam vindos da sociedade civil (nota: nem por sombras considero, nem me interessa discuti-lo, que Cavaco ou Alegre sejam candidatos independentes)?

Eu confesso desde logo uma enorme apetência por um candidato sem ligações a partidos. Porquê? Fundamentalmente porque (1) acho que é perfeitamente possível defender um ideal de sociedade sem estar ligada/o a um partido (2) um envolvimento partidário envolve compromissos (não há almoços de graça) que depois necessariamente atam a independência do eleito. Claro, vão-me dizer: bom, mas é precisa uma máquina atrás duma candidatura, e se não for um partido será uma Igreja, o lobbie dos construtores, etc, etc. Bom, eu acho que é óbvio que qualquer grupo de pressão facilmente se encapota num partido. Mas penso sobretudo que nos dias de hoje existem meios de divulgação de informação infinitamente baratos e eficientes que permitem o lançamento duma candidatura – basta que a sociedade civil queira cooperar. E este é o busilis da questão: a sociedade precisa cooperar. E a sociedade civil, para todos os efeitos, somos nós.

Um dos companheiros do ELEITO disse que os discursos bacocos (estilo “vou ser presidente de todos os portugueses”) fazem parte da encenação, e que nós gostamos de os ver entretidos. Pois eu não gosto. Não me entretêm de todo, acho uma bacoquice. E intriga-me que cidadãos interessantes e interessadas gostem.
mpf

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