quarta-feira, maio 26, 2004

Durão@pum.pum...

O passado fim de semana ameaçava transformar-se num autêntico massacre
desinformativo, entre a boda real espanhola e o congresso-comício 'laranja', em Oliveira de Azeméis. Felizmente consegui passar incólume, com a ajuda de amigos do CEDA (Centro de Estudos Documentais do Alentejo) que tiveram a ideia peregrina de vir a Beja estudar e debater a figura e a obra de um tal poeta Al-Mu'Tamid - nome
exótico, cuja ressonância árabe não deixará de despertar fundadas suspeitas entre apaniguados de Bush, da coligação Durão-Portas e aprendizes das 'secretas' lusas.
Apesar de tudo, sempre retive alguns apontamentos dos dois nacos de realidade virtual que fizeram o pleno das nossas três TV's generalistas - e, se mais tivéramos.

Do casamento entre o príncipe herdeiro Felipe de Bourbon e a ex-plebeia Letícia Ortiz, retive as manifestações em plenas Puertas del Sol, onde milhares tiveram a ousadia de gritar: "Menos bodas reales e más gastos sociales" e, suprema ignomínia, "España, mañana, será republicana!", cercados por centenas de polícias de choque que, desta vez, se mantiveram na expectativa - com Aznar, certamente,
outro galo cantaria.. Alegra-me verificar que a bandeira da República ganha de novo as ruas e já não só na Catalunha, onde a esquerda republicana cresceu ao ponto de se tornar a quarta força nas Cortes de Madrid e ter presença determinante na Generalitat catalã. Mas pergunto-me, como republicano, o que fazia na boda real de Madrid o PR de Portugal, Jorge Sampaio, mais 'a primeira dama' - uma excrescência monárquica que não consta da nossa Constituição - e que, segundo
rezam as crónicas, ofereceram aos noivos um centro de mesa em prata. Em nome do povo português não deve ter sido, independentemente do pormenor de saber quem pagou a prenda.

Quanto ao congresso-comício do PSD, foi a decepção absoluta. Longe vão os tempos do Coliseu e do suspense de Tavira, dos 2/3 de apoio ao líder Marcelo, mais ou menos manipulados na secretaria e que não impediram a sua queda a breve trecho.
Hoje restam os 100% de apoio a Durão Barroso, superando Pinto da Costa e imitando Saddam Hussein, às vésperas da invasão do Iraque. O cimento que une os barões - mas nem tanto o 'povo laranja'- é o apego desesperado ao poder, a três semanas das europeias. E querem lá saber se há ou não coligação com o PP, antes ou depois das legislativas; se Santana Lopes é candidato à Câmara de Lisboa, à Presidência da
República ou a ambas, sozinho ou contra Cavaco; e alguém ouviu AJJ reclamar, pela nonagésima quinta vez, o plebiscito a uma nova Constituição? - o último foi em 1933.

A estratégia agora é só uma: confiança a 100% no líder para levar a jangada até à outra margem e evitar o naufrágio; por sua vez, o 'querido líder' confia a 100% ou mesmo a 200% no partido - que remédio. Mas, só por ironia o povo português teria de confiar o seu destino a ruins marinheiros que, ainda por cima, transportam no
porão um PP encantado por submarinos e que, na hora da verdade, não hesitará em meter o barco ao fundo e escapar por qualquer rombo.

O único acontecimento digno de nota ocorreu na véspera do Congresso: a exoneração telefónica de Amílcar Theias e a sua substituição por Arlindo Cunha, o arquitecto da desastrosa reforma da PAC, em 1992. Como não está em causa a privatização das Águas de Portugal - esta é uma orientação do governo, reafirmou o primeiro-ministro - as próximas semanas talvez esclareçam as Theias desta luta entre lobbies candidatos à privatização duma presa apetecida: o negócio das águas,
um bem escasso e estratégico, com um volume de negócios que poderá em breve ultrapassar o do petróleo. Não por acaso, alguém já profetizou que a água poderá estar na origem dalgumas guerras do século XXI. Entregar este bem estratégico à gula das transnacionais é duplamente criminoso, quando um milhão de portugueses ainda não tem água canalizada em casa mas se verifica já um aumento generalizado
das tarifas da água e dos lixos, em nome de um suposto princípio do
poluidor-pagador aplicado a todos nós, pobres consumidores.

Tudo isto são trocos para um Durão Barroso enlevado na vertigem dos 100% que lhe deverão ter lembrado os 'bons velhos tempos' em que venerava "o grande líder e educador da classe operária"... Vai daí, pum-pum, disparou categórico, responsabilizando os comunistas pelos problemas de segurança que possam ocorrer durante o Euro 2004. Nem Salazar diria melhor. Afinal, temos em S. Bento um saudosista do Presidente do Conselho, tal como os espanhóis tiveram na Moncloa um
Aznar nostálgico do Caudilho. Mas, cá como lá, ELES MENTEM, ELES PERDEM.

Alberto matos

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